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A capa e a espada*

Ibn-Hazm, parcimonioso da história,

e Ibn-Abd-Rabbihi, da oratória,

ambos trataram o amor

com zelos de fêmea caprichosa.

Um o revestiu de colar precioso,

o outro lhe apôs da pomba

furtivo o colar gracioso.

Pobre rima a minha;

a deles, rica nos torneios.

De colar a outro, a de Alandalus

furtou-se à do Leste poesia

recamando-a em honrarias:

plurimultifacetados ambos,

costuraram túnica barroca

em alinhavados brocados de ouro.

Outros ibns de outros itens

lustrariam salões híbridos

de abrasado refinamento,

como o tal Ibn-Quzmân

de quem se sabe de romãs

vivia: dizendo que o feitor

lhas trazia à mesa posta.

Vizir vivendo à custa

de migalhas trocadas

por honrarias suadas em zejéis

enviesados de gazéis

panegirizados.

Que outra amostra de reféns

pôde a história prover

por melindres tão tortuosos?

Ibn-Ammar perdeu os miolos

por aliciar, sedicioso,

de Almutamid o imberbe ibn.

governador antes, a cara ornada,

reconduzido em burro de carga

foi o amado recalcitrante.

Restou-lhe a espada

que o rei deitou-lhe sob a cara

limada, antes, no colar caro

que a poesia enfeitara

em horas de entretenimento:

caprichos de Alandalus

em cenas de capa e espada.

*(poema do livro inédito Niúla, publicado originalmente no dia 28 de outubro de 2005, na edição nº22 da newsletter do Icarabe)

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Michel Sleiman
Michel Sleiman
Michel Sleiman é o atual diretor-presidente do ICArabe; professor do Departamento de Letras Orientais da USP; autor do livro de poemas Ínula Niúla (Ateliê, 2009) e dos livros de tradução e estudos literários A arte do zajal (Ateliê, 2007) e A poesia árabe-andaluza (Perspectiva, 2000); editor da Revista Tiraz (2004-2010).

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